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Brasil: 526 anos produzindo riqueza, mas para quem?Economia
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Brasil: 526 anos produzindo riqueza, mas para quem?

Por Carlos Neto · 26 de outubro de 2026

Desde 1500, a riqueza produzida no Brasil foi construída pelo trabalho de gerações de indígenas, africanos escravizados e trabalhadores livres. Durante o período colonial, os resultados dessa produção beneficiaram principalmente a Coroa portuguesa, comerciantes e grandes proprietários de terras, inicialmente favorecidos pelo sistema de sesmarias. A Independência, em 1822, e a Proclamação da República, em 1889, modificaram a organização política, mas não romperam com a concentração da propriedade e do poder econômico. O Brasil foi o último país independente das Américas a abolir a escravidão, em 1888, sem oferecer aos libertos condições materiais suficientes para superar a exclusão social.

Com a industrialização, a riqueza continuou sendo produzida pelos trabalhadores, agora também em benefício de industriais, empresários e grupos comerciais e financeiros. Mudaram as estruturas produtivas, mas a concentração econômica permaneceu. O país atravessou diferentes períodos autoritários, nos quais a participação política e a organização dos trabalhadores sofreram restrições. Mesmo assim, foram conquistados direitos importantes, como a Consolidação das Leis do Trabalho, promulgada em 1943, durante a ditadura do Estado Novo, sob Getúlio Vargas. Posteriormente, seu governo democrático criou a Petrobras, em 1953, fortalecendo a participação nacional em um setor estratégico.

O governo João Goulart, entre 1961 e 1964, apresentou um projeto de reformas de base que pretendia ampliar o acesso à terra, à educação e aos direitos sociais. Essa experiência foi interrompida pelo golpe militar. Durante a ditadura militar, o Brasil registrou crescimento econômico, mas acompanhado de concentração de renda, o que fez com que medidas de força fossem tomadas para impedir a revolta popular: entre 1960 e 1972, a participação dos 5% mais ricos na renda passou de 28,3% para 39,8%, enquanto a dos 50% mais pobres caiu de 17,4% para 11,3%. O chamado milagre econômico demonstrou que o aumento da produção não assegura, por si só, uma distribuição mais equilibrada da riqueza.

A partir de 2003, os governos Lula e Dilma desenvolveram políticas de valorização do salário-mínimo, ampliação do emprego, transferência de renda e expansão do acesso à educação. Entre 2003 e 2010, o salário mínimo acumulou valorização real de aproximadamente 58,5%, segundo o DIEESE. Milhões de brasileiros saíram da pobreza, e o país alcançou posição entre as maiores economias mundiais. Embora esse ciclo tenha enfrentado dificuldades e a recessão de 2015 e 2016, seus avanços sociais demonstraram a possibilidade de associar expansão econômica e melhoria das condições de vida. O terceiro governo Lula, iniciado em 2023, retomou políticas de valorização salarial e combate à pobreza.

O contraste histórico é significativo. Em aproximadamente 526 anos de formação econômica brasileira, os governos João Goulart, Lula e Dilma representam, até outubro de 2026, cerca de 20 anos de exercício efetivo do poder. Incluindo o segundo governo Getúlio Vargas, identificado com o trabalhismo e o nacional-desenvolvimentismo, esse período alcança aproximadamente 24 anos. Não foram os únicos momentos de conquistas sociais, mas representam experiências importantes de governos que procuraram colocar a proteção do trabalho e a inclusão popular entre os objetivos do desenvolvimento.

Durante séculos, o Brasil produziu riquezas extraordinárias com a agricultura, a mineração, a indústria e os serviços. Entretanto, a concentração dos resultados dessa produção persistiu, mesmo diante das transformações econômicas. A modernização produtiva, a expansão empresarial e a valorização do capital financeiro não garantiram, automaticamente, educação de qualidade, moradia digna, saúde e oportunidades para todos.

O verdadeiro desenvolvimento de uma nação não pode ser medido apenas pelo tamanho de seu PIB, mas pelo que esse PIB representa na vida da população. Uma economia não cumpre plenamente sua finalidade social quando a riqueza cresce sem que os benefícios alcancem, de maneira proporcional e duradoura, aqueles que contribuem para produzi-la.

Depois de 526 anos de trabalho e produção de riqueza, a pergunta permanece: quanto do patrimônio econômico construído pelos brasileiros foi efetivamente transformado em dignidade, conhecimento, oportunidades e bem-estar para o próprio povo brasileiro?

É uma covardia, após 5 séculos de governos de direita, dizer que a esquerda é o “sistema”.